
e Dicró cantou pra subir…
Não tem Pavaroti, nem José Carrera, nem Plácido Domingo. Eu sou mais o Bezerra do Galo, Moreira da Silva e Dicró Rei do Bingo.
Agora os Três Malandros estão juntos no céu. E nós, aqui na Terra, perdemos mais um grande comediante.
Conheci Dicró ouvindo os discos de meu pai, ainda na minha infância. Ria muito com suas músicas-crônicas da vida da favela. Narrando o enterro do Ricardão, negando a gravidez da sogra, falando do perigo que é a sua rua ou simplesmente contando seu fim de semana na praia de Ramos com a família. O Rei do Bingo era o último dos malandros vivos. Agora a música perdeu a sua malandragem de uma vez por todas. Moreira e Bezerra completaram o trio e Deus, mais uma vez, levou pra perto de si o que nós temos de melhor.
A despedida de Dicró é quase uma sentença de morte ao samba malandro, engraçado e sem compromisso com a sociedade da elite. Era música de favela de qualidade. Era o morro se derramando em poesia pra o asfalto. E agora, foi-se.
Dicró a essa altura já deve estar armando uma banca de dominó com São Pedro, contando piada a São Paulo e furando a fila no purgatório. Por que malandro como ele não vai pra o céu de uma vez. Antes, tem de dar uma espiada no inferno pra ver se tem alguma coisa de bom pra vender lá em cima.
Mas o tempo é o sacana mais democrático do mundo, e fechou o paletó do Ricardão de Ramos. Agora, até o piscinão, vai perder um pouco a graça.
Mas um cara que arrecadou dinheiro pra animar o velório de Bezerra da Silva, não merece ser lembrado com tristeza. Salve, Dicró!
Fica abaixo uma entrevista do Jô pra quem não conhecia ele.
autor

ERICK DA SILVA CERQUEIRA é publicitário, designer e articulista. Com trajetória ligada à comunicação, à criação gráfica e à preservação da memória, construiu sua carreira entre palavras, imagens e narrativas.
Autor do livro O Que Corre em Mim – Filhos do Sol e do Sal, onde estreia na literatura ao transformar lembranças familiares, relatos e vestígios do passado em uma narrativa sobre origem, identidade e herança.
Entre o sertão e a cidade, entre a história íntima e a memória coletiva, conduz o leitor por caminhos onde o que passou nunca deixa de permanecer.