
Deus no Céu e Lula lá
Era o dia 1º de janeiro de 2003, quando já emocionado pela festa em Brasília, ouvi o discurso de um homem que mudaria o Brasil “como nunca antes na história desse país”. E começava falando justamente de mudanças.
“Mudança; esta é a palavra chave, esta foi a grande mensagem da sociedade brasileira nas eleições de outubro. A esperança finalmente venceu o medo e a sociedade brasileira decidiu que estava na hora de trilhar novos caminhos. Diante do esgotamento de um modelo que, em vez de gerar crescimento, produziu estagnação, desemprego e fome; diante do fracasso de uma cultura do individualismo, do egoísmo, da indiferença perante o próximo, da desintegração das famílias e das comunidades. Diante das ameaças à soberania nacional, da precariedade avassaladora da segurança pública, do desrespeito aos mais velhos e do desalento dos mais jovens; diante do impasse econômico, social e moral do País, a sociedade brasileira escolheu mudar e começou, ela mesma, a promover a mudança necessária. Foi para isso que o povo brasileiro me elegeu Presidente da República: para mudar. “
Assim tinha início a Era Lula. Eram as primeiras palavras do primeiro retirante nordestino a subir a rampa do Planalto. As manchetes de alguns meios de comunicação do país demonstravam como seria o relacionamento deles com o novo presidente. Na Veja, do dia 8/1/2003, a manchete: “Lula de Mel. A partir de agora, começa a cobrança.” E logo em seguida, no dia 15/1/2003, a primeira das muitas alfinetadas no governo: “Trapalhadas na decolagem. O show de factoides no começo do governo Lula.”
“Ser um ícone”
Mas ele conseguiu. Resistiu aos escândalos e as manchetes cada vez mais ácidas contra seu mandato. Viu (ou melhor, não viu) o Mensalão ser o ponto mais baixo do seu mandato. O próprio presidente acusou o escândalo de ter sido uma fraude para evitar a sua reeleição, ou até mesmo um impeachment. Disse ele:
“O que mais me intriga é que o deputado que fez a acusação foi cassado porque não apresentou nenhuma prova. O texto da cassação dele, na Câmara dos Deputados, diz que ele foi cassado por falta de decoro parlamentar por não ter provado as acusações que fez. Mesmo assim, o processo contra os acusados continuou”.
Afirmou não saber de nenhum esquema para compra de votos e saiu ileso do escândalo que manchou a história do seu filho pródigo, o PT. Foi reeleito. Para piorar a situação da oposição, e da imprensa de oposição, tirou José Dirceu da Casa Civil e deu lugar a desconhecida tecnocrata, Dilma Rousseff. E deu certo. O programa Fome Zero foi engolido pelo Bolsa Família, surgiu o Programa de Aceleração do Crescimento, cresceram as exportações, solidificou-se a economia, pagou-se o Fundo Monetário Internacional, o Brasil passou a emprestar dinheiro ao antigo credor, superou-se a crise econômica mundial, milhares de pessoas saíram da situação de miséria, as Classes C e D passaram a consumir mais que as A e B, foram criados 15 milhões de novos postos de trabalho e hoje, como disse um infeliz jornalista da RBS, qualquer “miserável” tem um carro. Aos críticos, restou apenas o discurso do mensalão e a tentativa de dizer que o presidente está acima do PT por não ser um político, e sim, um ícone. Como se “ser um ícone” fosse obra do acaso, e não dos méritos pessoais de quem o é.
“Quem é vitorioso não se queixa”
Para a imprensa de oposição, ou como prefere chamar o Paulo Henrique Amorim, o Partido da Imprensa Golpista, restou apenas o “mas”. Quando obrigados a divulgar algum ato positivo do governo, utilizavam a conjunção adversativa referida para criticar logo depois, ou o inverso. Na opinião da jornalista da Folha, Eliane “massa-cheirosa” Cantanhêde, por exemplo, tivemos: “A política externa do presidente Lula foi bem sucedida… mas há um senão.” Já segundo o professor Marco Aurélio Nogueira, em matéria publicada no site do Estadão (única oposição explicitamente declarada nas eleições): Lula não inventou a roda nem começou do zero, mas mudou o país. Mas, diria a imprensa, eles tem suas razões. Como deve ter sido para a Folha de S.Paulo, crítica ferrenha ao governo, publicar a matéria “4 em cada 5 brasileiros consideram governo Lula ótimo ou bom”? E como é duro ver a tristeza o blogueiro vejista Reinaldo Azevedo, comparar a presidência da República com a presidência do seu blog e ainda soltar a frase mais cara-de-pau do ano “Farei oposição sistemática a Dilma? Ora, não fiz nem a Lula!” Porém, o presidente soltou a pérola do seu mandato em sua entrevista ao programa É notícia, da Rede TV, no dia 19 de dezembro de 2010: “A imprensa sempre foi justa comigo, nenhuma queixa da imprensa. (…) Quem é vitorioso não se queixa.” E ele foi.
Se não fossem os 17%…
No início do seu governo disse que não poderia errar, senão a esquerda nunca mais assumiria o poder no Brasil. Reelegeu-se e ainda conseguiu fazer a sua candidata substituta. Encerra seu governo com 83% de aprovação, sendo mais bem avaliado nas áreas do social, economia e geração de emprego e renda. Deixou o país com um índice de desemprego reduzido a impensáveis 5,7%, no mês de novembro de 2010, de acordo com o IBGE. Criou 14 Universidades federais no país e sai do governo para andar nas ruas.
Em sua posse, o presidente fechou o seu discurso assim:
“Peço a Deus sabedoria para governar, discernimento para julgar, serenidade para administrar, coragem para decidir e um coração do tamanho do Brasil para me sentir unido a cada cidadão e cidadã deste País no dia a dia dos próximos quatro anos. Viva o povo brasileiro!”
Agora, cabe a cada um de nós avaliarmos se Deus atendeu ao pedido ou não. Particularmente, parabenizo o presidente Lula e agradeço muito a Deus. Mas agradeço também aos 17% da população que avaliaram como ruim o governo Lula. Se não fossem vocês, seríamos uma unanimidade. E toda unanimidade…
Publicado no Observatório da Imprensa
http://observatoriodaimprensa.com.br/feitos-desfeitas/deus-no-ceu-e-lula-la/
autor

ERICK DA SILVA CERQUEIRA é publicitário, designer e articulista. Com trajetória ligada à comunicação, à criação gráfica e à preservação da memória, construiu sua carreira entre palavras, imagens e narrativas.
Autor do livro O Que Corre em Mim – Filhos do Sol e do Sal, onde estreia na literatura ao transformar lembranças familiares, relatos e vestígios do passado em uma narrativa sobre origem, identidade e herança.
Entre o sertão e a cidade, entre a história íntima e a memória coletiva, conduz o leitor por caminhos onde o que passou nunca deixa de permanecer.