
Conclusão do Estágio de ser Pai
Depois de longos e maravilhosos 9 meses, o estágio chegou à hora de apresentar o meu relatório de conclusão do mesmo, na empresa Pai de Thor. Porém, tudo começou muito antes, quando, em Porto Seguro, escolhi a pessoa que me proporcionaria tamanha felicidade. Eram os idos de 1997, e a escolha não poderia ter sido melhor. Depois de 5 anos de “tempo de experiência”, finalmente selamos o acordo oficialmente diante de um clérigo e centenas de testemunhas que lotaram a igreja. Apesar do clima religioso, sempre me orgulhei em dizer que “não casei para fins de reprodução”, e era a mais pura verdade. Casei para curtir uma vida a dois, sem me preocupar e nem esperar a vinda de uma terceira “pessoinha”.
Passaram-se 8 anos e finalmente decidimos que era a hora certa de ingressar nesse estágio, que hoje se finda. Mas, na capoeira, aprendi que “a fruta só dá no tempo”, e, por problemas “endometrióticos”, o tempo não era o propício. E surgiram as cirurgias, o drama, as noites mal dormidas, os choros, o desespero e mais cirurgias. Talvez o problema fosse em mim, e aí diversas consultas, exames e testes foram efetuados. Cheguei a criar um vínculo afetivo com o potinho do espermograma, mas apenas um caso passageiro. Até que um médico teve a capacidade e sutileza de dizer, para quem tanto queria, que algumas mulheres não nasceram para o ofício de ser mãe. Bem, quem me conhece sabe o quanto eu gosto de ouvir: você não vai conseguir.
Enfim, tomei uma decisão acertada. Determinei que faríamos uma inseminação artificial em 2014 e cumpriria a minha meta de adolescente, de fazer esse estágio com 36 anos (o dobro de 18). Contudo, senhores, mais uma vez descobri que a gente não diz a hora em que a fruta irá dar. Relaxada com a agora falta de cobrança de ser aquilo para o qual “não nascera”, enfim me deram o “golpe da barriga” para me prender, depois de 16 anos.
ATÉ QUE…
Começou como uma suspeita, virou um exame, transformou-se numa certeza via internet, num almoço dentro de um shopping, e coincidiu com a entrada de “ciscos nos olhos” dos pais. Contamos à família Correia e pedimos discrição. Contamos à família Cerqueira, pedimos o mesmo, mas, em segundos, todo o Facebook já tinha conhecimento do caso. E assim começou o estágio.
Tive a felicidade de aproveitar cada segundo. Curti o não-tamanho da barriga no primeiro mês, acompanhei os seios virando fábrica de laticínios, vibrei com a percussão do coração daquele ponto que piscava na tela preta, enquanto o médico insistia em dizer que era meu filho. Estudamos muito para encontrar um nome e decidimos que, qual Renato Russo, queríamos “um nome mais bonito”. E, em vez de santo, por que não o nome de um deus? Depois de escolhido, passamos para a etapa de convencimento dos seres que nos cercavam. Explicações, histórias contadas até o convencimento de que Thor é nome de gente, assim como Amy, Mel e Mila também o são.
Superada essa fase, o bebê passou a fazer milagres e já pôde ser canonizado. Aprendi a dirigir, algo que nunca tive vontade de fazer, mas que se tornou necessário. Virei assistente de pintor, 2º armado de berço e guarda-roupa, técnico em aspiração de pó, suplente de encerador de chão, decorador de quarto infantil, e essas foram apenas algumas das atividades inusitadas realizadas no estágio.
Com o passar dos meses, a barriga foi crescendo e as sessões de ultrassom 4D passaram a ser o dia mais esperado do mês. O rosto da criação mais perfeita desse designer se desenhava aos poucos, numa espécie de textura fractal sépia, que revelava o queixo, a boca parecida com a minha, os olhos, depois até dando língua para todos nós.
Era um sonho materializando-se como uma marca que surge no storyboard branco. Uma sensação estranha se desenhava. De realização de algo que nem foi iniciado. E tudo se resumia a imagens num computador.
Até que, em outubro de 2013, ouvi uma pergunta simples, que mexeu comigo: e aí, preparado?
A resposta foi direta: claro… que não.
Ninguém se prepara para isso. Podemos nos preparar para o dia do parto, para a chegada em casa, para sairmos de carro no dia do parto, mas, para ser pai, não há preparação. Hoje, há dois dias do fim do estágio, me sinto tão apto quanto um médico que sai da faculdade para operar o coração de um cardíaco. Não há como. Estou ansioso, tenso e apaixonado. E um homem apaixonado está longe de ser preparado para qualquer coisa…
Converso e canto para uma barriga que se mexe ao som da minha voz. Ciscos caem constantemente nos olhos quando acordo à noite e olho para o lado. Quando penso que transformei meus pais em pais, e agora os graduo como avós. Quando imagino a felicidade das duas novas tias babonas e do tio “retirante” em São Paulo. A alegria da família Cerqueira inteira quando soube da notícia. A festa na família da mãe, que acompanhou de perto os 5 anos de luta e cirurgias. Da madrinha de Thor, que chegou a pensar em ser “barriga de aluguel” para que ele viesse. Do padrinho, que sempre esteve próximo e junto com os pais dele. Ou simplesmente quando escrevo isso e me vem à mente tudo o que foi necessário passar para concluir esse estágio.
CONCLUSÃO
Declaro por encerrado o meu estágio e aguardo aprovação para assumir, no dia 6/2/2014, a função de Pai de Thor em definitivo. Declaro-me apto para as noites mal dormidas, o choro notívago, as privações no espaço da cama, o choro notívago, as trocas de fraldas, os choramingos para ir ao colo, Galinhas Pintadinhas e Patati Patatá na TV, o choro notívago, sessões de vacinas, horário limite na praia, visitas aos avós, o choro notívago e as festas de crianças.
Que o príncipe Thor, filho de Erick, chegue com as bênçãos de Deus, o amor de Jesus, a luz dos espíritos superiores, a graça de Buda, a força dos Orixás e a paz de Jah, num sincretismo religioso maravilhoso e cheio de saúde.
Erick Cerqueira
4 de fevereiro de 2014, às 3:00h da madrugada.
autor

ERICK DA SILVA CERQUEIRA é publicitário, designer e articulista. Com trajetória ligada à comunicação, à criação gráfica e à preservação da memória, construiu sua carreira entre palavras, imagens e narrativas.
Autor do livro O Que Corre em Mim – Filhos do Sol e do Sal, onde estreia na literatura ao transformar lembranças familiares, relatos e vestígios do passado em uma narrativa sobre origem, identidade e herança.
Entre o sertão e a cidade, entre a história íntima e a memória coletiva, conduz o leitor por caminhos onde o que passou nunca deixa de permanecer.