Desculpa, sem modéstia: eu cresci nos anos 1980 e 90.

Desculpa, eu cresci nos anos 1980/ 90. E sim, por isso eu pertenço a melhor de todas as gerações. A minha. Vou contar uma histórias pra vocês, porque é isso que os homens de meia idade fazem.

A gente ia pra escola andando, pra economizar o passe escolar, que era o avô do cartão de ônibus. Ele vinha numa folha enorme, picotada, pra gente destacar. Com o passe guardado comprávamos lanches no meio da rua, nas estações de ônibus. O famoso hotdog com sucão de laranja. Isso quando não pegava carona com mais 6 ou 8 crianças no Fusca de algum vizinho. Todos sem cinto, óbvio.

Nossos livros e cadernos eram forrados com um plástico horroroso, que nossas mães colocavam com todo carinho, mas a gente morria vergonha. Lembro de um quadriculado de branco e azul, que só Jesus na causa…

Os grupinhos na escola eram bem separados. A Turma das Luluzinhas e a dos Bolinhas, só se misturavam mesmo no baleado. No pátio, brincadeiras como ”se esconder”, “picula”, “durinho”, “elástico”, “chicotinho queimado” e “telefone sem fio”. Tinham também as mais perversas, (sim, éramos terríveis também) como “Garrafão”, “São Marcelo”, “Castanha”, “futebol-porrada”, mas nessas normalmente os sexos não se misturavam, muito por causa dos murros e tapas.

Ostentação era relógio com calculadora e joguinhos, ou Technos Mariner Kit que trocava pulseiras. Jogar Atari na TV que seus pais dizinam que iria estragar o aparelho, usar mochila da Company, carteira da Fico ou OP, e amarrar o Kichute na canela.

As meninas, com suas sandálias da Melissa, papéis de carta, agendas com segredos que as amigas já sabiam mas tinham sempre um cadeado, revistas Capricho e bonequinhas “agarradinho” nas mochilas coloridas e fãs da Xuxa.

Ser radical era usar camisa Rato de Praia, desenhar o símbolo da Anarquia ou The Dead Kennedys no caderno, comprar revista Fluir, usar jaqueta preta, colecionar o álbum Impacto e fazer Karatê. Se fizesse capoeira, “aí só com bala”, era o que se ouvia sobre esse esporte considerado de malandros, na época.

A gente assistia filme de luta Bruce Lee, Stallone, Chuazeneguer (ninguém acertava escrever aquele nome), Van Damme e depois saia pra treinar com os colegas.

Nossos herois destruiam cidades inteiras, com metralhadoras e bombardeios, numa guerra que a gente nunca entendia o porquê, mas ficava triste quando morria um “dos nossos”, que sempre era um soldado americano.

No futebol éramos uma geração que chorava no futebol. Só fui ver o Brasil campeão aos 17 anos. Chorei muito em 1982, 86 e 90. E a gente torcia de verdade. O país parava pra ver até amistoso da Seleção. Mas eram outros tempos.

Nossas musas, hoje, quase todas avós com “demonização facial”, tinham corpos bem mais esbeltos que as meninas dos dias atuais. Faziam Ginástica Aeróbica e os homens musculação.

Na TV, só tínhamos 4 opções de canais. Globo, SBT, Bandeirantes e Manchete. Ah, a manchete, êh Juma Marruá. Saudades. Na Bandeirantes, Gretchen era o auge da sensualidade, no Clube do Bolinha, e quem perdia alguma aposta tinha de rebolar o piripirimpirim. Na Globo, tínhamos as Chacretes rodando e avisando o Cassino do Chacrinha. No SBT, só muito depois veio depois a Banheira do Gugu.

A menina arrancava os cabelos pelo Olhar 43 de Paulo Ricardo, “O Boto” pelado de Carlos Alberto Riccelli, Paulo Zulu, os Menudos e tinha o capoeirista Beto Simas mostrando a bunda numa abertura de novela. Depois surgiram os malhados das novelas das 7h, que atuavam sempre sem camisa.

Era o país saindo de uma ditadura e anseando por liberdades. Afinal, havia poucos anos em que os programas da Globo começavam sempre com uma tela do documento da CENSURA, imposta ainda pelo finalzinho do regime de excessão, exposta por alguns segundos, sob silêncio sepulcral na tela.

Mas chega de nostalgia. Você está lendo isso num site ou ouvindo isso numa rede social. Já pode voltar a realidade. Dos seus filhos, dos seus netos, dos boletos de coisas imprescindíveis que nem existiam naquela época, das TVs com 1000 canais que você nunca assiste mais de 10.

Os tempos mudaram. A vida adulta chegou, mas não devemos jamais esquecer da criança que nós fomos um dia. Não somos mais o Bart ou a Lisa, mas nada de se tornar o Hommer ou a Marge. A gente teve base pra ser melhor que isso.

Por Erick Cerqueira

autor

ERICK DA SILVA CERQUEIRA é publicitário, designer e articulista. Com trajetória ligada à comunicação, à criação gráfica e à preservação da memória, construiu sua carreira entre palavras, imagens e narrativas.

Autor do livro O Que Corre em Mim – Filhos do Sol e do Sal, onde estreia na literatura ao transformar lembranças familiares, relatos e vestígios do passado em uma narrativa sobre origem, identidade e herança.

Entre o sertão e a cidade, entre a história íntima e a memória coletiva, conduz o leitor por caminhos onde o que passou nunca deixa de permanecer.