Livro – Colégio Santa Marta – 1º dia de aula

Estava animado em vestir aquela camisa branca e a calça jeans  que eles chamavam de farda. Uma mochila cheirando a plástico, um kichute com cadarço amarrado, após várias voltas na canela fina, uma meia branca, um caderno, lápis e borracha que eu já usava para desenhar. Estava pronto.

Almoçamos e saí de casa triunfante, como um gladiador subindo as escadas do Coliseu. Subimos uma escada mal feita, de uns 10 degraus, na frente de casa, seguimos subindo a ladeira e, mais 3 degraus largos, uma curva, mais 4 degraus estreitos e chegamos numa área aberta que chamávamos de largo.

Meus avós, orgulhosos, esperavam debaixo de sol para ver o quarto neto da família Cerqueira, indo pra escola. Estavam sentados num banco que iria ser imortalizado mais tarde como o banco Lupi e Dedé. Deixamos meu irmão com minha vó. Trocamos beijos e abraços, depois subi as grandes escadas de 44 degraus que ligavam a Travessa à Rua Almeida Sande. E lá fomos nós. Uns cem metros de reta, viramos à esquerda no bar de Piauí, que acho que sempre existiu, e subimos mais uma ladeira íngreme. A ladeira da Mesquita. Na encruzilhada entre a Mesquita, a Gen. Labatut e a Junqueira Ayres, ficava o Colégio Santa Marta.

No portão, toda aquela alegria e segurança, foram-se. 

Aos prantos, implorava pra minha mãe pra não me deixar ali, sozinho, no meio de tanta gente desconhecida. Logo ela que sempre me ensinou a não falar com estranhos. Ela pacientemente explicava que ali era a escola que o seu primogênito dizia estar tão animado pra conhecer. Abraçava ela com força como se estivesse indo para um matadouro, minha vida dependia daquilo. Mas foi tudo em vão! 

Havia um porteiro que ria muito de toda aquela cena, provavelmente de tanto vê-la, e tentava me acalmar. Vencido pelo cansaço, quase desidratado pelos lágrimas em vão, entrei. Tinha uma ante-sala de 3mx4m, um portal de ferro, como uma prisão, e um pátio enorme, cinza com piso liso. Ele me disse que minha sala seria a primeira virando à direita. Havia uma escadinha de uns 4 degraus. Ainda contrariado, subi. A porta estava aberta para uma sala com janelas brancas e piso de taco. 

Crianças com cara de choro e poucos amigos, aguardaram a minha entrada, já não tão triunfal, como imaginava. Fui recebido por uma mulher baixa, gordinha, cabelos pretos longos, que parecia uma índia, mas tinha nome de princesa: Pró Isabel. Uma criatura tão amável que fez com que meu medo sumisse aos poucos.

Sentei-me ao lado da janela que dava pra rua. O sol das 13h esquentava as paredes caiadas e assisti aquela mulher perguntando o nome de cada um dos alunos. Alguns deles lembro claramente, como Janaína Bramont, Carla Dias, Nilsinho Bonadie, Vanessa, além da dupla Maicon e Jackson (por motivos óbvios).

Minha sala se chamava Alfabetização. Lembro da tabuada, da caligrafia que sempre odiei, com  suas linhas cinzas, brancas e amarelas. Tinha um caderno pequeno de brochura, com linhas deitadas em azul claro e uma em pé, mais à esquerda, em vermelho. 

Havia um cheiro de álcool na sala, por causa de um papel que a professora nos deu para desenhar. Era tudo muito novo, mas desenhar era o meu forte. Já sabia ler quadrinhos e fazia contas de somar e diminuir. Mas era legal ver aquela indígena ensinar a gente. Era como uma reparação histórica que a gente nem sabia que existia.

De repente tocou uma sirene bem alta e saímos da sala para o recreio. Minha mãe colocou suco num copo plástico vermelho da tuppeware, que tinha uma tampa branca meio transparente e um pão com manteiga e uma maçã, em outra vasilha. 

Uma vez minha mãe mandou uma coca-cola no copo vermelho. Quando cheguei, coloquei ele na janela da sala. O gás do refrigerante fez o copo explodir e molhou vários colegas de refrigerante. Também me molhei, mas lembro de rir muito da situação.

Mas voltando ao dia 1

Nem lembro se comi no primeiro dia de aula, porque saí da sala conversando com todo mundo. Achava o máximo ter tanta criança junta. E como meus parentes diziam que eu tinha “engolido uma vitrola”, ali tinha muita coisa pra conversar. 

Havia uma área no fundo do colégio, que tinha uma quadra pra jogar bola. Achava aquilo ótimo. Mas a gente só podia usar na hora da aula de educação física. Porque nos outros horários os alunos maiores da 4ª série, sempre dominavam a área.

Certa vez inventei de ir agarrar. Tomei uma bolada na testa de um menino chamado Marcelo, e cai. Não sei se desmaiei ou se fingi. Mas quando abri o olho as meninas estavam em cima de mim, tentando me reanimar. Achei aquilo massa e fiquei mais um tempo fingindo dor, pra receber o carinho delas. Descaração? Talvez. Mas foi marcante.

No ano seguinte, na Primeira Série, a Pró Isabel continuou sendo nossa professora. Mas agora já tinham várias outras matérias.

Havia um livro escrito EMC, logo no início, fotos de soldados armados sobre um tanque de guerra. No título, em letras mais grossas, estava escrito: A Gloriosa Revolução de 64. O ano era 1983 e o país ainda vivia o fim da Ditadura. Tempos depois iria descobrir que nem tudo que a escola ensinava, era verdade…

autor

ERICK DA SILVA CERQUEIRA é publicitário, designer e articulista. Com trajetória ligada à comunicação, à criação gráfica e à preservação da memória, construiu sua carreira entre palavras, imagens e narrativas.

Autor do livro O Que Corre em Mim – Filhos do Sol e do Sal, onde estreia na literatura ao transformar lembranças familiares, relatos e vestígios do passado em uma narrativa sobre origem, identidade e herança.

Entre o sertão e a cidade, entre a história íntima e a memória coletiva, conduz o leitor por caminhos onde o que passou nunca deixa de permanecer.