
Livro – O pastel de Dona Dedé, Piquet, Zico, Emo e Ditadura
Acordei, como normalmente fazia, às 5 horas da manhã daquele longínquo ano de 1983. Escovava os dentes e abria a porta de casa, que ficava abaixo do nível da ladeira, para dar bom dia aos vizinhos que subiam para seus trabalhos. Ficava ali assobiando (algo novo aprendido com minha amiga Dóris, de Dona Antonieta) e pensando na minha vida. Depois entrava, ligava a TV e colocava na TV Itapoan para assistir à abertura da programação, ao som de um berimbau e uma flauta tocando Baixa dos Sapateiros, de Dorival Caymmi, em um clipe com imagens da Bahia.
Quase sempre subia para a casa de meus avós para pedir a “bença” a eles. Lá, ajudava meu avô a fazer a massa do pastel. Passava aquela coisa branca em um amassador. Era um negócio incrível, com dois rolos de alumínio. A gente girava a manivela e a massa ia ficando fina do outro lado. Tinha até um regulador para deixá-la ainda mais fina. Era legal. Com a massa pronta, era a hora de recortá-la no formato do pastel. Meu avô usava uma ferramenta estranha, do tamanho de uma colher, com um cabo e uma rodinha dentada. Ele ia recortando a massa na mesa em formato redondo e depois fechava numa meia lua. Com as sobras, eu juntava e fazia esculturas no formato de lagartixa ou tartaruga, que iriam se tornar “cavacos”, uma espécie de pastel sem carne.
A carne já havia sido passada pelo moedor manual, onde o fiel escudeiro girava a manivela novamente. Isso exigia um pouco mais de força, mas nem deixava ele perceber o meu esforço.
Depois, misturava com cebola, tomate e pimentão. Ia tudo para uma bacia de plástico e, de lá, para a massa em formato de círculo, que, aberta na mesa, parecia uma tampinha de garrafa aberta.
Com tudo pronto, a gente levava com cuidado para o Quartinho do Pastel de Dona Dedé. Lá havia uma fritadeira com óleo escuro, e os pastéis saíam dourados, crocantes e deliciosos. Essa parte minha avó não pedia minha ajuda por questões de segurança.
Com os pastéis prontos, ela os enrolava naquele papel higiênico rosa que parecia uma lixa, para “chupar o óleo”, e depois iriam para um saco e, de lá, eram levados para uma lanchonete chamada Baitakão, que ficava na esquina da Piedade com a Junqueira Ayres, e para a barraca de Seu Gino, que já existia na frente do que viria a ser o Shopping Piedade.
Lembro de ir com meu primo Allan levar os pastéis a Seu Gino. Às vezes, rolava até um caldo de cana gelado por lá. Um cara gente boa, que sempre me tratou bem.
No esporte
Na volta, ia brincar de corrida de Fórmula 1 em casa. Riscava de giz o piso vermelho liso da sala para fazer a pista. Os pregadores de roupa eram os carros. Os de madeira eram todos os outros, e o de plástico cinza, que pendurava as roupas do meu irmão menor, era a Brabham de Nelson Piquet. Ele sempre ganhava, é verdade. Era o meu ídolo máximo.
Já meu pai cultuava Zico, um jogador do Flamengo que havia sido campeão do mundo pelo clube, mas, para mim, era só um dos caras que tinham perdido a Copa de 1982, no ano anterior. A gente tinha um Compact Disc do jogador Júnior, lateral-esquerdo, cantando:
“Voa, Canarinho, voa.
Mostra pra esse povo que és o Rei.
Voa, Canarinho, voa.
Mostra na Espanha o que eu já sei…”
Pois bem, voaram foi de volta pra casa, depois que Paolo Rossi lascou a Seleção em bandas. Lembro da festa que a gente fez antes do jogo, das fotos que tiramos com uma bandeirão do Brasil que ganhamos numa loja — se não me engano, da Tio Correia — e depois de ver meu pai, meu avô e meus tios tristes com aquela virada inesperada. Foi feia a coisa.
Mas o que importa é que o meu Bahia venceu a terceira final do Baiano, contra a Catuense de Zanata, com gol de Emo e éramos Tri Campeões do Estado. Depois de velho peguei até um baba com o Magro, e pude constatar: Emo > Zico.
Mas nem tudo eram flores.
O país vivia sobre uma ditadura. Na TV, antes dos programas começarem, a Rede Globo, que era retransmitida pela TV Aratu, canal 4, exibia uma imagem estática do documento da censura imposta pelo regime. Eram segundos angustiantes até para quem não entendia nada de política. A referência que a gente tinha, quando criança, era de ter medo da polícia. Mas, aos domingos, a gente descia para a frente da casa de Dona Inácia para fazer algo absolutamente questionável.
Ficávamos em cima do morro assistindo aos policiais fazendo blitz nos ônibus na entrada da Lapa, colocando as pessoas para fora, e, quando alguém dizia algo errado, tomava porrada dos policiais. As crianças riam daquilo, como se fosse uma comédia de cinema, enquanto Dona Edinha e outras senhoras que assistiam diziam:
— Meu Deus, coitado. Que absurdo…
autor

ERICK DA SILVA CERQUEIRA é publicitário, designer e articulista. Com trajetória ligada à comunicação, à criação gráfica e à preservação da memória, construiu sua carreira entre palavras, imagens e narrativas.
Autor do livro O Que Corre em Mim – Filhos do Sol e do Sal, onde estreia na literatura ao transformar lembranças familiares, relatos e vestígios do passado em uma narrativa sobre origem, identidade e herança.
Entre o sertão e a cidade, entre a história íntima e a memória coletiva, conduz o leitor por caminhos onde o que passou nunca deixa de permanecer.