Saudosismo real da infância 80

“Ah, no meu tempo é que as coisas eram boas”… Pense num papo furado de velho saudosista que quer impressionar os mais novos. Era nada. Quando vejo o vídeo daquele coroa com bigode de mosqueteiro do século XVII falando aquelas bobagens, dá vontade de desmentir tudo.

Jovens, a gente hoje glamouriza o tampão do dedo arrancado no futebol, mas não conta que colocava Merthiolate ou iodo em cima. Esses remédios tinham o poder de fazer a alma deixar o corpo por alguns segundos. Nem fala que passava uma semana com o dedão enrolado em gaze, algodão e esparadrapo, indo para a escola com um pé de sapato e outro de sandália. E todo relevo batia bem ali.

Os meninos, para verem uma mulher nua, tinha de ser num catálogo da Hermes, na parte de calcinha. E os primeiros peitos que a gente viu foram os da Juma Marruá.

As meninas, coitadas, eram apresentadas a pintos em livros de ciência sobre doenças venéreas. Apaixonavam-se por modelos de capa de caderno Click chutando ondas na praia sem camisa. E, se você fosse gay, tinha de ser escondido.

“Ah, ninguém usava cinto de segurança e…”. E morria, mizéra! De cada 10 vítimas fatais no trânsito, ainda hoje, 6 estavam sem cinto de segurança e poderiam ter sobrevivido.

“Ah, não tinha Bolsa Família.” Sim, e 77% da população do Nordeste vivia na pobreza em 2003. E hoje esse número caiu para menos de 40%.

“Ah, mas não existia esse mimimi de bullying. A gente fazia piada racista e tudo bem.” Véi, as coisas sempre existiram, só que os sofrimentos eram guardados e viraram frustrações e revoltas. Minha vó, preta, não gosta de preto, porque ela aprendeu que preto nem é gente. Meu filho, branco, sabe que não existe branco no país e que racismo é crime e bullying é burrice.

“Ah, mas quando a gente precisava pesquisar uma coisa, ia na biblioteca…”. Tenha certeza de que o autor dessa frase não lê um livro há muito tempo.

“A educação era melhor, a gente cantava o hino.” Era ditadura, bicho. E a gente aprendia nos livros a chamar de Gloriosa Revolução de 64, e, na década, 25% eram analfabetos no Brasil.

“Tá, mas a gente tinha mais segurança.” Sim. E os jovens pobres tinham mais medo da polícia do que hoje. A diversão lá da rua era ir assistir à blitz da PM, domingo à noite, na entrada da Lapa, para ver os caras batendo nas pessoas que estavam sem documento no ônibus. Éramos pobres rindo da violência contra pobres, sem nos dar conta de que poderíamos ser os próximos.

“Ah, mas a gente se alimentava melhor.” Sério? Suco Tang, tubaína, biscoito, pirulitos Zorro e Diplik, balas Soft, que, quando engasgavam, a gente pensava que ia morrer, açúcar misturado com leite de Chernobyl, pão com manteiga e açúcar.

“Mas as músicas tinham letras trabalhadas e não falavam de sexo abertamente.” Certo. Rala o Pinto, Segura o Tchan, Ralando na Boquinha da Garrafa, Julieta Tá, O Bichinho da Selma, Seu Delegado Prenda o Tadeu, A Butique Dela, A Pipa do Vovô Não Sobe Mais…

Parceiro, a parada é a seguinte: a infância da gente foi massa porque a gente fez ela ser massa. E, mesmo com tantos problemas, a gente sobreviveu a eles e hoje lembra somente das partes boas, maximizando-as. Esse papo de “no meu tempo era melhor” é conversa fiada. Nossos filhos hoje têm uma infância muito melhor que a nossa. Mesmo com as nossas limitações, conseguimos dar mais a eles do que nossos pais nos deram. E assim foi com a gente também. E tá tudo certo.

O cara que diz “no meu tempo não tinha smartphones” tá fazendo vídeo num smartphone, para uma plataforma de vídeo de um app, publicando na internet que nem existia. Ele não tá gravando numa câmera VHS para exibir no videocassete da casa dele.

Então, meus amigos, vamos comemorar nossa infância, que foi massa, mas sem essa retrospectiva idílica. A gente fala que foi bom porque é nosso, faz parte da nossa história de vida. Mas aceitem: jogar um FIFA no celular é muito mais legal do que esperar para ir para a casa do vizinho jogar Soccer no Atari dele.

Texto: Erick Cerqueira
Correção: ChatGPT, do Bing (que só recomendou trocar uma vírgula por um ponto)
Fotografia: imagem gerada através da inteligência artificial Copilot.

autor

ERICK DA SILVA CERQUEIRA é publicitário, designer e articulista. Com trajetória ligada à comunicação, à criação gráfica e à preservação da memória, construiu sua carreira entre palavras, imagens e narrativas.

Autor do livro O Que Corre em Mim – Filhos do Sol e do Sal, onde estreia na literatura ao transformar lembranças familiares, relatos e vestígios do passado em uma narrativa sobre origem, identidade e herança.

Entre o sertão e a cidade, entre a história íntima e a memória coletiva, conduz o leitor por caminhos onde o que passou nunca deixa de permanecer.