Trecho do Prólogo: Origens

Publicado em 25/ 05/ 2026

Ouvi panelas, xícaras, passos de quem já vivia enquanto os outros ainda sonhavam. O cheiro do café tomou a casa.

Levantei correndo. Queria ser o primeiro a dar parabéns.

Ela beijou minha cabeça e respondeu com a delicadeza de sempre:
— Vá lavar as “travage” e venha tomar café comigo.

Demorei um instante para entender. Mandava que eu escovasse os dentes.

Erotildes Ferreira da Silva completava quarenta e seis anos.

Foi por isso que viajamos.

Disse a ela que no banheiro não havia água. Pegou um caneco de alumínio amassado e me chamou para o quintal.

Lá fora o cheiro era outro mundo: plantas molhadas, flores, sereno e uma leve lembrança de esterco de cavalo trazida pelo vento.

Parou diante da bomba d’água e me ensinou a puxar a água do poço. Achei aquilo grandioso.

Sentamos no batente.

Escovei os dentes e perguntei sobre meus bisavós.0

Ela ficou um instante em silêncio, depois disse:

— Meu pai me deixou pequena para ser criada por uma tia. Era cangaceiro. Irmão de Lampião.

Eu conhecia Lampião dos folhetos de cordel vendidos nas feiras.

Apertei a escova entre os dedos para esconder a alegria e perguntei da mãe dela.

Nenga baixou a cabeça.

— Não sei quem era. Diziam que era uma mulher branca e rica.

Mesmo criança, percebi que havia histórias que chegavam quebradas até nós.

Minha mãe acordou e fomos tomar café. Cuscuz, ovos de galinha caipira colhidos no quintal.

Na mesa, meu pai contou que o pai dele chegara a Salvador vendendo galinhas vivas dentro de um balaio.

Falava da Roça do Lobo, uma invasão no Vale dos Barris, onde ele morou até os seis anos. Das dificuldades da área. Dos amigos que fez pra vida toda.

Contou que meu avô Lupicínio chegou a ter até banca de jogo do bicho, pra ajudar na renda do feirante e sustentar a família grande.

Depois, falou dos seus tempos de vendedor de pastéis. Promovendo as vendas com rimas fáceis que fazia ao gritar para quem passava nas ruas do centro de Salvador dos anos 60.

Nenga ria dele enquanto lavava os pratos.

Escutava atentamente meu pai contando as histórias.

Naquela família, cada geração parecia ter começado carregando um peso. Uma história.

(…)

De um lado, os que vieram do cangaço, carregando poeira, bala, fuga, fome, solidão e silêncios.

Do outro, os que ergueram a vida nas ruas de Salvador, entre feira, trabalho, homens da lei, esperança e casa cheia.

Duas sagas diferentes, como sol e chuva, entrelaçadas, atravessando um século de Nordeste.

Duas correntes de sangue que um dia se encontraram pela força da poesia.

E tudo isso que veio antes, ainda corre em mim.

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autor

ERICK DA SILVA CERQUEIRA é publicitário, designer e articulista. Com trajetória ligada à comunicação, à criação gráfica e à preservação da memória, construiu sua carreira entre palavras, imagens e narrativas.

Autor do livro O Que Corre em Mim – Filhos do Sol e do Sal, onde estreia na literatura ao transformar lembranças familiares, relatos e vestígios do passado em uma narrativa sobre origem, identidade e herança.

Entre o sertão e a cidade, entre a história íntima e a memória coletiva, conduz o leitor por caminhos onde o que passou nunca deixa de permanecer.